Eunice Arruda à queima-roupa


[foto: Juan Esteves]

1 – O que é poesia para você?

A poesia, para mim, é uma das formas de viver. Que está incorporada em meus dias. Significa captar, no cotidiano (ou em outra dimensão que não ouso nomear), as emoções. Os pensamentos. Para depois devolvê-los ao mundo transformados em outra linguagem: a da poesia. Mas, muitas vezes, abandonei este caminho – a estrada real – para conhecer o atalho. Visitar a cor de outras ramagens.

2 – O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?

Um iniciante – que para mim são todos os poetas no momento que iniciam a escritura de um poema – é exatamente esta palavra: perseguir. Escrevendo, rescrevendo até encontrar a forma exata que o próprio poema reconhece. Também é necessário estabelecer um diálogo com os procedimentos artísticos do passado e do presente. E abraçar as múltiplas vozes que imploraram as nossas palavras.

3 – Cite 03 poetas e 03 poemas referências para o seu trabalho poético. Por que destas escolhas?

Os poetas referências para o meu trabalho são aqueles cujos poemas, ou trecho de poemas não consigo esquecer. Porque são poemas ou trechos de poemas que eu gostaria de ter escrito. Por exemplo, o de Lúcia Ribeiro da Silva:

“De tudo que tive na vida
Só levarei um pôr do sol
De tudo que tive do tudo
Só levarei um pôr do sol
De todas as coisas ardentes
Só levarei um pôr do sol
Só levarei
Sol levarei um por do sol.

( do livro “Jogo fixo”, Livraria José Olympio Editora, apresentação de Walmir Ayala, RJ/R/, 1966)

E também a última parte do poema “Natal” de Claudio Mello e Souza:

“Olhar sem susto para o fim.
No meu último passo,
Serei o último sujeito.
Deixarei vestígios.
A vida não é um crime perfeito.”

( do livro “Passageiro do tempo”, Editora Nova Fronteira, RJ/RJ, 1985)

No mais, há os outros poetas que me acompanharam e acompanham sempre, com maior ou menor intensidade os, digamos, clássicos, como Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meirelles, Manuel Bandeira: referências insubstituíveis.

Eunice Arruda nasceu em Santa Rita do Passa Quatro (SP). Pós-graduação em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (1988). Prêmio no Concurso de Poesia PABLO NERUDA, organizado pela Casa Latinoamericana, Buenos Aires, Argentina, 1974. Presença em antologias, com poemas publicados no Uruguai, Colômbia, França, Estados Unidos, Canadá. Fez parte da diretoria da União Brasileira de Escritores e do Clube de Poesia de São Paulo. Ministra oficinas de criação poética desde l984, em locais como a Biblioteca Mário de Andrade e a Oficina da Palavra (Secretaria de Estado da Cultura). Coordenou os projetos Tempo de Poesia/Década de 60 em l995 e Poesia 96/97, promovidos pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Por tais iniciativas recebeu o prêmio de Mérito Cultural em 1997 conferido pela União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, RJ. Foi homenageada com o prêmio Mulheres do Mercado, concedido pela Casa de Cultura de Santo Amaro – São Paulo/SP, 2005. Em 2006, fez leitura de poemas para o programa Momento do poeta –Instituto Moreira Sales (IMS) – SP, disponível na Rádio IMS: http://www.ims.com.br. Leitura de poesia no projeto “Mulheres do Planeta” (Casa das Rosas e Oca).

Lançou os seguintes livros: É tempo de noite. São Paulo, Massao Ohno, 1960. O chão batido. São Paulo, Coleção Literatura Contemporânea, n.7,1963. Outra dúvida. Lisboa, Panorâmica Poética Luso-Hispânica, 1963. As coisas efêmeras. São Paulo, Ed. do Brasil, 1964. Invenções do desespero. São Paulo, edição da autora, 1973. As pessoas, as palavras. São Paulo, Ed. de Letras e Artes, 1976 (1.ed); São Paulo, Ed. do Escritor, 1984 (2.ed). Os momentos. São Paulo, Nobel/Secretaria de Estado da Cultura, 1981. Mudança de lua. São Paulo, Scortecci, 1986 (1.ed.); 1989 (2.ed.) Gabriel: São Paulo, Massao Ohno, 1990. Risco. São Paulo, Nankin Editorial, 1998 (Prêmio “Fernando Pessoa” da União Brasileira de Escritores, RJ/RJ). À beira. Rio de Janeiro, Blocos, 1999. Há estações (haicai). São Paulo, Escrituras Editora, 2003 – selo do Programa Nacional do Livro Didático. Olhar (haicai). São Paulo, Dulcinéia Catadora, 2008. Dias contados (conto). São Paulo, RG Editores, 2009. Blog: www.poetaeunicearruda.blogspot.com Email: poetaeunicearruda@bol.com.br

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Eunice Arruda à queima-roupa

Joana Ruas à queima-roupa

1) O que é poesia para você?

A Poesia deve ao poeta alemão Novalis a sua melhor definição. Grata pela oportunidade de a recordar, num tributo à sua memória, aqui a deixo:
«A poesia é representação da alma, representação do mundo interior na sua totalidade. Os seus intermediários, as palavras, já o indicam, pois elas são a manifestação exterior deste reino profundo. O sentido poético tem muitos pontos comuns com o sentido místico. Trata-se do sentido de tudo aquilo que é particular, pessoal, desconhecido, misterioso, de tudo o que deve ser revelado, de tudo o que é ao mesmo tempo necessidade e acaso. O sentido poético representa o irrepresentável. Ele vê o invisível, sente o insensível… A crítica da poesia é um absurdo: já é difícil de dizer se uma coisa é poesia ou não, e isto é ainda a única distinção possível. O poeta é literalmente insensato, e, por outro lado, tudo se passa nele. Ele é, ao pé da letra, sujeito e objecto ao mesmo tempo, alma e universo. Daí o carácter infinito e eterno de um bom poema.
A poesia é o real absoluto. Quanto mais uma coisa é poética, mais ela é verdadeira.»

2) O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?

Deve conviver com a poesia de outros poetas, adquirir o sentido da forma e partir, infinitamente partir para tudo o que o possa exprimir na sua singularidade e experiência pessoal.

3) Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que destas escolhas?

Ao longo dos anos o meu contacto com as obras dos vários poetas de que tive conhecimento ajudou-me a progredir mental e moralmente. Através de uns encaminhei-me para outros que, na altura me pareceram mais próximos da minha própria demanda ou ainda, porque notava a existência entre nós de uma afinidade electiva. Sem esquecer a minha dívida para com todos eles, portugueses e estrangeiros, neste momento a minha escolha vai para Rimbaud, Bashô e José Ángel Leyva.

Rimbaud, inventou Khenghavar, um país mítico de uma geografia apócrifa , um país plein de lourds cieles ocreux et de fouet de fleurs en chair. Khenghavar era o país mítico onde todos os lugares eram poéticos, onde todas as viagens se faziam de homem para homem, de povo para povo. Para salvar a própria pele ,Rimbaud enterra a sua inspiração poética no negócio de marfim e peles de leopardo, de tigres e cabras, negócios baseados em ofícios sangrentos de matar, arrancar presas, esfolar animais. Estuda aGramática Somali e o Corão de que faz uma tradução bilingue, francês e árabe. Segundo escreveu, depois de abandonar a poesia, cumpriu a existência e, se condenado a viver durante bastante tempo ainda em França, não passaria ali de um estrangeiro.

L´Éternité

Elle est retrouvée.
Quoi? — L´éternité.
C’est la mer allée
Avec le soleil.
(do livro Une Saison en Enfer)

Matsuo Bashô
Este poeta japonês do século XVII escreveu num dos seus Diários:« Estou só e escrevo para minha alegria». Para mim, ele, perante as atribulações da sua existência de peregrino, alcança a sua maravilhosa serenidade através da sua arte, isto é, a arte do equilíbrio na desilusão.

Ervas do estio
Eis o que resta
Da ambição dos guerreiros

do livro O Gosto Solitário do Orvalho)

José Ángel Leyva, que só agora estou descobrindo, impressionou-me pelo seu dom de uma expressão directa que reflecte, não só o Real como a sua realidade subjectiva. O seu poema Marcha fúnebre para um anjinho narra a caminhada do indecifrável para o mundo do Humano tornado familiar pela acção de o nomear.

Marcha fúnebre para um anjinho

Assim que alce a escotilha
E veja o meu sangue exaltado
Fazendo remoinhos no crânio
Terei a infância à minha mercê
Poderei tocar-lhe com a mão
Reviverei ossaturas
Falarei com meus irmãos
De tantas coisas esquecidas
Sairemos a passear pelos campos
Um bosque de pinheiros e de fetos
Se abrirá como casca de árvore
Veremos regressar as chuvas
Com sol e num descampado
Resgataremos o véu dos nomes
A pedra permanecerá livre e será pedra
O musgo e o orvalho arroios
E ser e estar na estação do ano
O soçobro da água e das folhas
Quando abrir a escotilha da minha casa
Um menino como eu terá morrido
Não temerá a obscuridade a sua cara de anjo
Não hesitará em mostrar-me as cavidades
Comuns dos olhos
O seu verdadeiro rosto
assomará por essa porta

(do livro Duranguraños)

Finalmente, alguns haiku da minha autoria

Camélia

Camélia branca
Sorriso de névoa
Na milenar rocha
Da saudade

Carta

Verde, a folha
Voa
Por oceanos de Tempo
Para o Amado

Poente

Com raro esplendor
Qual taça de vinho quente
Ergue-se a frésia vermelha
Ao doirado sol do poente

Joana Ruas publicou os seguintes romances: Corpo Colonial, Centelha, Coimbra, 1981; O Claro Vento do Mar, Bertrand Editora, Lisboa, 1996; A Pele dos Séculos, Editorial Caminho, Lisboa, 2001; A Batalha das Lágrimas, Editora Calendário,2008. Em prosa publicou Na Guiné com o PAIGC, reportagem escrita nas zonas libertadas e Zona (ficção). Escreveu os ensaios: Amar a Uma só Voz, Colóquio Rilke, Edições Colibri, Lisboa, 1997; A Amante Judia de Stendhal e E Matilde Dembowski, e A Guerra Colonial e a Memória do Futuro, comunicação apresentada no Congresso Internacional sobre a Guerra Colonial. Participou na 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará onde proferiu uma palestra intitulada Aproximar o Distante, Do Estranho ao Familiar — duas experiências: Timor-Leste e Guiné-Bissau. A sua poesia encontra-se dispersa por publicações como NOVA 2 (1975), um magazine dirigido por Herberto Helder; o seu poema Primavera e Sono com música de Paulo Brandão foi incluído, pelo compositor Jorge Peixinho, no 5º Encontro de Música Contemporânea promovido pela Fundação Gulbenkian; Cartas a Ninguém de Lisa Flores e Ingrid Bloser Martins, Vega. Participou nas antologias: Antologia da Poesia Erótica, Universitária Editora; Na Liberdade, Garça Editores; Mulher e Um Poema para Fiama, Editora Labirinto. E-mail: joanaruas@sapo.pt

Joana Ruas à queima-roupa

Luiz Roberto Guedes à queima-roupa


[foto: Akira Nishimura]

1) O que é poesia para você?

Poesia é certamente uma forma de conhecimento do mundo e da psique. É memória mágica da humanidade, um rito persistente na tentativa da arte de reencantar o mundo. Serve para celebrar os nomes de divindades extintas e majestades desaparecidas, ou para assinalar experiências sensoriais, como aquele simples e misterioso “gole de água bebido no escuro”, por exemplo, de que fala Mário Quintana num poema.

2) O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?

Eu creio que esse iniciante deve se esforçar para ler o maior número possível de poetas, de todos os séculos e culturas, para poder captar o espírito poético através das épocas e a vibração do poeta vivente em seu momento sob o sol. Creio que é simplesmente fundamental que a poesia diga algo e que, essencialmente, diga respeito à vida. Em meados dos anos 90, um tanto desapontado com a poesia norte-americana naquela altura, Lawrence Ferlinghetti recomendava aos poetas que fossem para a rua e fizessem “novas e frescas observações” da realidade ou do cotidiano.

3) Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que destas escolhas?

Em termos de iniciação e formação, em minha adolescência, os numinosos Bandeira, Drummond e Jorge de Lima. Em Bandeira, o dizer exato e simples e a revolta contra “a vida que podia ter sido e que não foi”, mais a contínua evasão para Pasárgada, onde “tem prostitutas bonitas para a gente namorar”. Na cordilheira mineira de Drummond, sua investigação no reino obscuro das palavras, sua profundeza e seus calculados delírios, como aquela celebração de uma Fulana que “é toda dinâmica/tem um motor na barriga/suas unhas são elétricas/seus beijos refrigerados”. Em Jorge de Lima, essa catedral fantástica que é Invenção de Orfeu, que nos revela, por exemplo, a divindade como um cacho de faces, concepção surpreendente para um poeta confessadamente católico. Claro que Mário de Andrade e Oswald são santos no meu altar. Preciso acrescentar ao rol o buleversante Murilo Mendes e o poeta José Paulo Paes, por sua fina lição de concisão e humor. Das pessoas do Pessoa, talvez a poesia de Alberto Caeiro tenha se sedimentado mais, em mim. Naturalmente, outras influências se somam e se entrelaçam, como a práxis concretista, a poética beat, a música popular etc. Ou se faz magia… ou se faz mélange.

Luiz Roberto Guedes é paulistano, poeta, escritor e tradutor. Publicou, entre outros, Calendário Lunático/Erotografia de Ana K (Ciência do Acidente, 2000) e organizou Paixão por São Paulo – antologia poética paulistana (Editora Terceiro Nome, 2004). Lançou a aventura juvenil Armadilha para lobisomem (Cortez Editora, 2005) e a novela O Mamaluco Voador, pela Travessa dos Editores, de Curitiba. É, também, letrista de música popular sob o pseudônimo de Paulo Flexa. E-mail: lrguedes@hotmail.com

Luiz Roberto Guedes à queima-roupa

Oniá: oO Murmurador na noite

[poema inédito de Vicente Franz Cecim]

Como uma Construção erguida para baixo

rio em Silêncio, e serpentes: A Palavra
interminavel

mente
calada

mente de Aves Profundas

e um Carrilhão de Luz

soando na Penumbra dos Seus Olhos,

dAquilo que escurece
as manhãs de cinzas
as pedras dos dedos da Oração

quando o mais Alto se ergue

e depõe o Muro Branco das Idades
como Transparência

no deserto Inundado
dos Teus sonhos: Cílio

da Carne,

e Rumor de Bosque Escuro

Curva dos Lábios
que não dizem – Rio

lá, onde
a Água Escura de um Abismo

Aquele que teve os olhos Selados
já não aguarda a Aurora das Virtudes: o Guardião de Sombras

Aurora das virtudes

Quando a terra se abre aos nossos pés,
quando a terra se abriu aos nossos pés

e vindo a ausência da Ausente, veio a Ausência
do ausente

e A que devorávamos na Sombra estava atrasada, e vindo

a que esperávamos estava atrasada

Caminho lento
que a terra ainda não abrira aos nossos pés

ainda Tantas vezes O teu silêncio e a Pálpebra
que não quis nos ver

Tantas vezes o Conselho: Soluça sem espreitas

Tu me nutriste de Escombros,
como uma construção erguida para baixo
não eram os passos

Vocação de Olhos mais Escuros
quando a mão se abriu

para tocar O céu

Não eram os Passos dos que vieram antes

Sim

Quando a Árvore sem tréguas descer do céu

como saber: Se um homem vem por degraus

no coração da nave submersa nos Seus Olhos,

antes
que a Inquietante fale as Palavras
mas não após o silêncio das Virtudes

indo
ao Encontro das lápides Flutuantes e das Águas
se erguendo para a Sede

e na penumbra oh na Penumbra
de um Encanto

e
da Esfera tombada no Caminho
por Onde ainda Passam os que passaram antes
Na penumbra oh na Penumbra,

enquanto espera a tempestade, a: Tempestade

nos

Repousos

dos

Teus

Passos

Lodo das espécies

As Catedrais de Luzes já foram semeadas
no Centeio Negro

e não te voltas para colher a Sombra

O
Que Ora está ausente
onde murmura Silêncio a Serpente

Agora aquele que aguardou a Alvura
despertou na névoa e sem olhos

Agora, Aquilo se lançou nas Águas e
sem guelras
Nenhum Cílio

desvia o Pó de um homem das Visões
do Florescer
ao Fenecer
da vida,

indo

tu serás o Escombro de Lágrimas

Canto Mais Impuro
O
cantando
Se um Oceano de pedras descesse
uma palavra Não te espera

Reino que Se curva

Quando a Mente, sem espinhos,
torturou Teu Sangue

veio a lágrima

e O orvalho te doou

O Lago

Na Solidão
se tinge o Lodo

Ainda é a carne a Submersa na pedra
que o teu Dom adormece

Estação das seivas

Não era a Infância ainda,
pois foi antes

Instante

sem tempo, O cancelado instante
de Ressurreições

do Pó

enteNoite
ente de murmúrios: uma semente,
apenas Uma bastaria, Escura

Se
no Silêncio de Seivas em que nasceste

o teu Luar acolhesse a serpente

Corpo nu da Demanda profunda

aquele que Tomba,

quando virá à Tona coberto de Cinzas

quando dará às Fontes suas mãos de Encantos em ruínas até
à Seca folha lágrima Raiz da Desfolhada não nascida

quando dirá ao outroO
nascendo do seu Lado Esquerdo com a ferrugem
das Catedrais partidas
– Busca

O ourO Escuro

para onde, para onde

Irá
indo,
indo

com sua imortalidade de lençóis de Alvura: O naufragado em terra,
caminhando sobre águas brancas que não vê


de despedidas de reencontros de Trevas murmurantes
Pedra de Queda como um fruto; o Fruto O

que alcança a outra margem: Oo

Fervor de Limo
Levanta vôo para baixo

Quando obterá a recusa da Envolvente?

e o Não lhe será um Dom
de Indiferença

que poupará, por Desprezo
que poupará, pelo silêncio

VICENTE FRANZ CECIM nasceu e vive em Belém do Pará, na Amazônia, Brasil. Desde que iniciou em 1979 a invenção de Viagem a Andara oO livro invisível, se devota unicamente a essa obra imaginária, que chama de literatura fantasma e diz escrever com tinta invisível. Os livros visíveis que escreve emergem dessa Viagem, ou, segundo o autor, não-livro, ambientados no território metafísico e físico de Andara, transfiguração da Amazônia em região-metáfora da vida. Em 1980, recebeu o prêmio Revelação de Autor da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte, por sua segunda obra, Os animais da terra. Ao longo dos sete primeiros livros de Andara prosseguiu abolindo as fronteiras entre prosa e poesia. Publicados inicialmente pela Iluminuras no volume Viagem a Andara, receberam, em 1988, o Grande Prêmio da Crítica da APCA, nessa década somente atribuído também a Hilda Hilst, Cora Coralina, Mario Quintana e, na seguinte, a Manoel de Barros. Em novas versões, transcriados pelo autor e reunidos nos volumes A asa e a serpente e Terra da sombra e do não, foram reeditados em edição comemorativa, pela Cejup, em 2004. Em 1994, Silencioso como o Paraíso, lançado pela Iluminuras com mais quatro livros de Andara, em que o autor reafirma sua disposição de converter a literatura em pura escritura, foi aclamado por Leo Gilson Ribeiro como “um dos mais perfeitos livros surgidos no Brasil nos últimos dez anos.” Desde então, suas novas obras passaram a ser publicados apenas em Portugal. Em 2001, a Íman lançou Ó Serdespanto, livro duplo, em que a palavra cada vez mais aprofunda o seu dialogo com o silêncio, aqui reeditado em 2006 pela Bertrand Brasil. Apontado pela crítica portuguesa, no jornal Público, como o segundo melhor lançamento do ano, Cecim foi saudado por Eduardo Prado Coelho como “Uma revelação extraordinária!” K O escuro da semente, que saiu em Portugal pela Ver o Verso em 2005 e tem lançamento previsto, no Brasil, pela Bertrand, inaugurou uma outra fase em sua linguagem, que o autor denomina Iconescritura. Fase que se prolonga em seu livro mais recente, lançado em 2008 pela Tessitura, de Minas Gerais: oÓ: Desnutrir a pedra. Nesta obra, o autor aprofunda sua demanda de uma nova escritura, mesclando palavra, silêncio da página em branco e imagem. Diz que durante esses anos todos, Andara lhe desvelou que “o natural é sobrenatural, o sobrenatural é natural.” Em 2009, a invenção de Andara atinge 30 anos de criação. E-mail: andara@nautilus.com.br

Oniá: oO Murmurador na noite

Jorge Rivelli à queima-roupa

1) O que é poesia para você?

Inundado de maravillosas metáforas de maravillosos poetas elijo hoy la de Joseph Brodsky: “la poesía es un espíritu que busca carne pero encuentra palabras”…puedo decir que es un cóctel pagano y partisano, cartesiano y místico; una interferencia cotidiana de sangre y tinta.

2) O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?

Leer, leer diferentes estilos poéticos, diferentes autores, leer y leer…sin miedo a quedar influenciado. La lectura es una herramienta que, junto con los hechos cotidianos, alimentan la creatividad. Además tomar el oficio como una tarea a largo plazo, que necesita de una disciplina. Trabajo diario.

3) Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que destas escolhas?

César Fernández Moreno toda su poesía provoca y elijo el poema más conocido de él “argentino hasta la muerte”. Nicanor Parra que también entra en la tendencia de César de la poesía existencial, también una obra difícil de elegir un poema “prédicas y sermones del cristo de Elqui” es un poemario como también me gusta “poemas y antipoemas” pero de elegir uno … “la víbora”. Charles Bukowski dentro de una obra irregular pero que desarma las alcantarillas para mostrar a los mortales más cerca del infierno. No sé que poema elegir pero “qué es lo que quieren” podría ser. Son sólo tres pero agrego uno sólo más Esteban Moore, su poesía escarba Buenos Aires hasta las más íntimas secuencias, además desarrolla una lírica que representa una poética de la generación de los ochenta. El poema: “ángeles caídos”.

Jorge Rivelli, Buenos Aires agosto de 1954. Publicó: Un tiempo para matar (1991), Movimiento en fuga (1992), Trompe l’oeil (1994), Hebra mojada –en colaboración con Alejandra Mendé-(1997), Matambre (2004) y Las calles terminan en los bares (2005)-Premio Fondo Nacional de las Artes-. Desde 1999 dirige la revista de poesía OMERO. E-Mail: rivelliom@gmail.com

Jorge Rivelli à queima-roupa

Um poeta de olho no Irã

Ter ido ao Irã em 2004, ter visto as ruínas do império persa de Dario e Ciro lá em Persépolis e Pasárgada, e ter ouvido e visto a opressão atual do regime dos aiatolás narrada por intelectuais, artistas e gente do povo nos jantares, ruas e praças, me põe mobilizado, sobretudo diante dessas fotos atrozes em que soldados de motocicletas espancam mulheres e jovens que protestam contra a discutível eleição desse insano radical chamado Ahmadinejad. Claro, ele não está só, é cão de guarda do sacerdote que acima dele se julga dono dos corpos e mentes dos iranianos.

Essa ferocidade toda esbarra por outro lado num dos aspectos mais delicados da alma persa e iraniana. No meio dessas notícias desoladoras desponta um fato que reafirma coisas que ali vi: a ligação do povo iraniano com a poesia de ontem e hoje. No meio do tumulto dos protestos, diz o correspondente do “Independent” Robert Fisk: “Um estudante de engenharia química da Universidade de Teerã, que andava junto a mim na multidão, cantava em farsi, em plena chuva. Pedi que traduzisse (para o inglês) o que dizia.”É um poema de Sohrab Sepheri, um de nossos poetas modernos”- disse ele. Me pergunto se isso era realmente verdade. Estaria ele cantando um poema em meio a uma manifestação em Teerã que estava tentando mudar a História? Era isso sim. Eis o que dizia o poema:

‘Devemos seguir sob a chuva,
devemos lavar nossos olhos,
devemos ver o mundo de um jeito diferente’
“.

Quando li isto procurei saber mais sobre esse poeta. Encontrei coisas e acabei traduzindo e botando outro poema dele em meu site/blog. O poema se chama “Do verde ao verde”, foi publicado no “Volume Verde”, editado no mítico ano de 1968, e, por coincidência, a cor verde é a cor da campanha dos opositores de Ahmadinejad.

Ah, se esses abutres religiosos com suas almas pretas e tenebrosas deixassem a alma desse povo se abrir e respirar! Me lembro das lindas mulheres iranianas ensaiando sua liberação, usando roupas mais claras, mostrando o rosto, o cabelo já tingido, a maquiagem; me lembro até delas comprando roupas intimas em algumas lojas, começando a soltar a eroticidade reprimida. Para mim elas pareciam borboletas tentando sair da escura crisálida para abrir asas multicoloridas.

Quando lá estive, era primavera. E a primavera tinha duplo sentido. Olhava as neves nas montanhas de Alborz ao redor da cidade. Estavam começando se derreter. E esperava-se também o degelo do regime trazido por Khomeini. Regime, que ao surgir nos anos 70, vejam que paradoxo, foi louvado por vários intelectuais franceses. Esses franceses são meio alucinados. Na década anterior muitos deles louvavam Mao Tse Tung.

Esperando a volta progressiva à democracia, impressionou-me no museu de Esfahan um raro objeto chamado “coletor de lágrimas”. Era uma espécie de ampola que servia para as mulheres recolherem suas lágrimas. Asssim os maridos poderiam medir a quantidade de lágrimas vertidas por elas, como medida de seu amor.

Já lhes contei que no Irã recentemente houve um terremoto que destruiu toda a cidade de Bann. Vários dias de busca de sobreviventes até que os soldados acharam uma velhinha de 97 anos, que ao sair dos destroços declamou um poema de louvor à vida. A poesia, contraparte da violência, faz parte da alma humana. E no Irã, poetas de há mil anos como Hafez, Saadi, Ferdowsi, Omar Hhayyam continuam vivos na boca do povo.

A alma iraniana está fazendo tudo para sair da escuridão dessas roupas, da ideologia tenebrosa desse regime. As borboletas querem abrir as asas. Ou como diz Sepehri Sohrab, no poema “Do verde ao verde”:

Dentro desta escuridão
eu sonho com um cordeiro luminoso
que virá pastar a erva de minha fadiga
.

Verde é a cor da renovação no Irã, é a cor do opositor Mir Houssein Moussavi.

Que o verde sobreviva.

SOBRE OS TELHADOS DO IRA
Affonso Romano de Sant’Anna

Sobre os telhados da noite, no Irã
ecoa a voz agônica
dos que querem
se expressar.

Não é a ladainha dos Moezins
e suas preces monótonas
-conformadas

é o canto verde rasgando
o negro manto dos aiatolás
como se do alto das casas
fosse possível antecipar
-o parto de luz
que sangra na madrugada.

TOIT’ IRAN
Affonso Romano de Sant’Anna (Trad. Serge Bourjea)

Sur les terrasses de la nuit, en Iran
eclate la voix agonisante
de ceux qui exigent
d’exister.

Ce n’est pas la litanie des Muezzins
et leurs prières monotones
– conformées.

C’est le chant vert, déchirant
le manteau noir des Ayatollahs,
comme si, du haut des maisons,
se pouvait anticiper
– la naissance de la lumière
sanglante du matin.”

Affonso Romano de Sant’Anna é poeta, cronista, professor, administrador cultural e jornalista. Tem mais de 40 livros publicados, ensinou em universidades estrangeiras e nacionais e, à frente da Biblioteca Nacional (1990-1996), criou o Proler, o Sistema Nacional de Bibliotecas e programas de exportação da cultura brasileira. Os textos acima foram cedidos de seu site/blog http://www.affonsoromano.com.br/ E-mail: santanna@novanet.com.br

Um poeta de olho no Irã