Sylvio Back à queima-roupa


[foto: Guilherme Gonçalves]

1) O que é poesia para você?

Poesia é a mais imponderável das criações do espírito humano. E a única totalmente imprevisível. “O poema não é um ato compulsório”, ensina W.H. Auden. Uma espécie de bricolagem holística do que fomos, somos e seremos, daí esse caráter profético ancorado, como se fosse uma segunda pele, em nosso e no inconsciente coletivo. Talvez uma “brisa mediúnica” que sopra sobre e dentro de você e do seu intelecto quando ela bem entende. Poema é como suicídio, você não premedita, simplesmente comete! Por isso, todo poema é uma obra completa. Na sua invenção, implodem tanto o passado quanto o devir. Só a palavra é presente, a dádiva sobrevivente. Em cada poema a imersão formal e a exorcização moral são tamanhas que ele sempre soa o último. Como se a musa jamais fosse voltar à cena do crime.

2) O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?

Tempos atrás fui interpelado por um neo-poeta que me fez essa pergunta. De cara pensei em dizer que, antes de tudo, há que se ter talento e amar a poesia. O que são verdades incontornáveis. Mas, insuficientes. Na hora tive uma iluminação, pois nunca havia elocubrado sobre o tema. Disse-lhe algo mais ou menos assim: leia e releia muita poesia de qualidade, de todos os tempos, brasileira e estrangeira, essa, se possível, na língua do criador, caso não, traduzidos, com o original ao lado para conferir o “tamanho” da traição. “Traduzir é poetar às avessas”, assim chama-se o livreto com poemas do americano Langston Hughes que verti para o português. Portanto, mente, olhos e ouvidos atentos! A partir de então, numa auto-crítica implacável, avalie até que ponto ficou influenciado por esses e outros poetas de sua preferência. Se pressentir que em um e outro poema ou verso existe identificação, isso ainda não é dicção própria, ou seja, não é a “sua” poesia, nem poesia, se rigorosos formos. E poesia é antes de tudo, rigor em todos os sentidos! Certo dia, passados, sei lá, os anos, passada a vida, passados os poemas, você surpreender nos seus versos uma inaudita estranheza, uma negação absurda de tudo que você pensa seja poesia, como se “aquilo” não parece coisa sua, algo que não lembra nada do que você leu ou escreveu, e sente um misto de medo e felicidade, é bem provável que a “sua” poesia o tenha fulminado.

3) Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que destas escolhas?

Muitas vezes o poema chega antes do poeta. No meu caso, eu cheguei fora de hora, maximizando a chamada “angústia da influência” (Bloom). Ainda que a estante de poesia seja maior do que a de livros de cinema, só ousei poetar já homem maduro com uma filmografia de trinta títulos. Leitor voraz desde a juventude, escrevi os primeiros versos aos 48, sem nunca antes ter cometido nenhum poema, nem por desfastio ou artimanha amorosa.

movie junkie

sou um reles
traficante de
fotogramas

antes fazendo fita
do que viver sem
Viveca Lindfors

movies não
há mais timing
livre-se deles

do cowboy que fui
restam furtivas
ínfância e infâmia

a bala na lua
Méliès de olho
a dor irisada

queimei o filme
queimei o poema
queimei se amei

Em fins de 1984 fui literalmente invadido por uma cadadupa de inesperados versos sofridos e doridos, frutos de um incontornável drama existencial. Logo vieram Drummond e Mallarmé, advertindo que pensamentos & sentimentos não bastam, que é preciso penetrar “… surdamente no reino das palavras” (CDA), que um poema é feito de palavras, não de idéias. Para agravar a conflagração, foram chegando, imbricados, versos e estrofes inoculados pelas chamadas “palavras do antro”. Fiquei perplexo e assustado. Ato contínuo, porém, procurei não apará-las da contundência de suas hipérboles erótico-fesceninas, do seu “amor & humor” (Oswald de Andrade), eivados de viço e isentos de vício. E dei-lhes passagem. Até hoje: dos sete livros publicados, quatro remetem-se, justamente, a esse gomo nobre da poética, o verso fescenino, também rotulado de pornográfico e poemas de sacanagem. Entretanto, grife dos maiores, tanto do Ocidente como do Oriente e d’África, do Egito, Grécia, Roma e China antigos à atualidade.

Foi então que me dei conta, leitor contumaz de Catulo, Juvenal, Ovídio, Marcial, Bocage, das medievais “Cantigas d’escarnho e de mal dizer”, de Aretino, Gregório, Apollinaire, António Botto, Boris Vian, Hilda Hilst, Bernardo Guimarães, Whitman, Kafávis, Verlaine, Affonso Ávila, etc., o quão tinha sido refém do preconceito contra o verso licencioso. Ou seja, de expressões obscenas, daquele “baixo calão” aceito na prosa, no teatro, no cinema, mas proscrito na poesia. “Não existe palavra impura para o poeta”, escreveu Manoel de Barros, ao ler meu livrinho de estréia, “O caderno erótico de Sylvio Back”. A poesia empurece qualquer palavra.

ablução do grelo

tantos vorazes ofícios
bocas e salivas assaz

tanta porra que jorre
sacia vícios e ardores

tantos orifícios há pra
aplacar dedos e dildos

tanta ablução do grelo
o caralho é prisioneiro

Dado esse assincrônico despertar para o poema (são apenas vinte e dois anos escrevendo e publicando), fica difícil enunciar o paideuma fundador do meu estro. Embora fácil rememorar os primeiros leitores: coube à tríade de poetas paranaenses, Paulo Leminski, Alice Ruiz e Sérgio Rubens Sossélla, nos idos dos anos 1980, o aval e curso aos versos inaugurais, eles tão surpresos quanto eu. Até que ponto fui inoculado pelo seu poemário, só o tempo dirá. Na seqüência, criadores e criaturas, antes deles, iam, foram e voltaram ao longo de, no mínimo quatro décadas, todos embaralhados a uma trintena de filmes dos mais variados torques estéticos, políticos e morais. Como se poema e cinema dormissem juntos e jamais tivessem trocado algum afago. Os fotogramas, na verdade, sempre embutiram epigramas. “O poema/antevê/o cinema” (álbum d’alma, em “Moedas de Luz”).

Nessa voragem, só me resta homenagear, de forma randômica, poetas e poemas que, feito um eterno iniciante (vá-te, Back!), os leio e releio, descubro novos (como Laura Riding), deliciando-lhes a alma e a beleza com primevos pureza e encantamento. Sem que nenhum deles, propriamente, fosse ou é, o azimute dos fesceninos e que tais (o erotismo é o DNA de todo poema), sinto-me o receptáculo privilegiado dos influxos difusos e confusos, esmaecidos e quase todos prescritos ao longo do tempo, oriundos do inimitável fabbro de um, entre tantos (além dos citados), Bandeira, Issa, João Cabral, Auden, Celan, Sá-Carneiro, cummings, Murilo, Dickinson, Augusto de Campos, Bashô, Álvares de Azevedo, Rilke, Helena Kolody, Keats, Jorge de Lima, Paz, Wang Wei, Cecília Meirelles, Mallarmé, Eliot, Cruz e Souza, etcetera, etcetera, etcetera. Quem sabe não seja de todo impertinente o título do meu novo livro: “Isto ainda é poesia?”

Eurus

sopre este poema
da página enxote
pro nume que dá
a lume sopre aqu
eloutro suma com
todos e deixe o tí
tulo sumo do que
do verbo fora po
esia viés que ag
ora seria não és

Sylvio Back é cineasta, poeta, roteirista e escritor. Filho de imigrantes, pai húngaro e mãe alemã, é natural de Blumenau (SC). Ex-jornalista e crítico de cinema, autodidata, iniciou-se na direção cinematográfica em 1962, tendo escrito, dirigido e produzido até hoje 36 filmes, entre curtas, médias e dez longas-metragens, esses, a saber: “Lance Maior” (1968), “A Guerra dos Pelados” (1971), “Aleluia, Gretchen” (1976), “Revolução de 30” (1980), “República Guarani” (1982), “Guerra do Brasil” (1987), “Rádio Auriverde” (1991), “Yndio do Brasil” (1995), “Cruz e Sousa – O Poeta do Desterro” (1999) e “Lost Zweig” (2003).
Publicou vinte livros entre poesia, ensaios e os roteiros dos filmes, “Lance Maior”, “Aleluia, Gretchen”, “República Guarani”, “Sete Quedas”, “Vida e Sangue de Polaco”, “O Auto-Retrato de Bakun”, “Guerra do Brasil”, “Rádio Auriverde”, “Yndio do Brasil”, “Zweig: A Morte em Cena”, “Cruz e Sousa – O Poeta do Desterro” (tetralíngüe), “Lost Zweig” (bilíngüe) e “A Guerra dos Pelados”.
Obra poética: “O caderno erótico de Sylvio Back” (Tipografia do Fundo de Ouro Preto, Minas Gerais, 1986); “Moedas de Luz” (Max Limonad, São Paulo, 1988); “A Vinha do Desejo” (Geração Editorial, SP, 1994); “Yndio do Brasil” (Poemas de Filme) (Nonada, MG, 1995); “boudoir” (7Letras, Rio de Janeiro, 1999); “Eurus” (7Letras, RJ, 2004); “Traduzir é poetar às avessas” (Langston Hughes traduzido) (Memorial da América Latina, SP, 2005), “Eurus” bilíngüe (português-inglês) (Ibis Libris, RJ, 2006); “kinopoems” (@-book) (Cronópios Pocket Books, SP, 2006); e “As mulheres gozam pelo ouvido” (Editora Demônio Negro, SP, 2007). E-mail: sylvioback@gmail.com

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